domingo, 2 de julho de 2017

O ilustre desconhecido



Tudo que o homem não conhece não existe para ele. 
Por isso o mundo tem, para cada um, 
o tamanho que abrange o seu conhecimento."
(Carlos Bernardo G. Pecotche)

Sou apaixonada pela palavra, a palavra tem o poder de inspirar, de nos fazer pensar, aliás, se você lê e não pensa sobre o que leu, pare de ler e vá fazer outra coisa.
Palavra sem pensamento é vazia e pensamento sem atitude também. O conhecimento por si só é informação se não atingir o âmago do ser, se não entrar como flecha e ficar martelando como martelo. Num mundo onde tudo é informação, saber vale ouro, mas saber para que?

O excesso de informação torna-nos ávidos consumidores de tudo que se apresenta nas mídias, mas pense comigo, quando alguém te procura para contar que está com câncer, quando um casal amigo se separa, quando alguém perde um parente querido num acidente, de que adiantam os livros, as horas de aula, os debates inflamados sobre política se nada te consola na hora da dor?

Sabedoria vem do latim sapere que quer dizer sabor, gosto, é a condição de quem tem conhecimento, erudição. No grego sofia quer dizer saber, qualidade que dá sensatez, prudência, moderação, ou seja, nada tem a ver com pilhas de livros e horas aula. É óbvio que o conhecimento pode abrir a mente, o ponto em que quero chegar vai um pouco além: o desconhecido, aquilo que não conhecemos está mais perto do que imaginamos.

Normalmente agimos de forma automática, não sei em que fase da vida se altera, mas a impressão que tenho é que em um determinado tempo a percepção muda e quando acordo parece que nem dormi, quando entro no trabalho parece que nem saí, quando volto para casa parece que estou sempre chegando, se não faço de uma vez o que precisa ser feito acaba passando e quando vi foi-se o dia, o mês, chegamos a metade do ano e já estou pensando no Natal. É tanta ocupação que meus pensamentos passam despercebidos, não sei o que sinto com tudo isso, só sei que está passando depressa demais, que preciso ver como estou, mas que horas?

Aprendemos a definir valores e estabelecer prioridades, ser excelentes em tudo que nos propomos fazer, ajudar os desprovidos, ensinar as crianças, mas e o “eu”?
Muitas vezes a busca desenfreada por conhecimento, por respostas é justamente a falta de conhecimento de si mesmo. É muito mais fácil buscar fora, comprar um livro ou uma revista, assistir um filme, ouvir uma palestra, estudar uma apostila, conversar com um terapeuta, navegar anônimo na internet do que silenciar e ouvir a si mesmo. Tenho tentado me exercitar e confesso que aquietar me entedia, canto, repito uma prece, mas em silêncio mesmo é quase impossível ficar. Não digo para esvaziar a mente, afinal mente vazia, oficina do diabo já dizia minha vó. Aquietar não é esvaziar, aquietar é tornar quieta, parar de fazer barulho, de se distrair. Aquietar-se é entrar em contato consigo mesmo e porque não dizer com o Deus que nos fez.
Para ouvir é preciso calar. Quanto tempo você passa ouvindo?

Amo a palavra, foi pelo verbo que tudo se fez, mas há momentos que é preciso aquietar e buscar este ilustre desconhecido que chamam de EU.
Você conhece tanta coisa, sabe falar outros idiomas, já visitou meio mundo, tem milhares de seguidores nas redes sociais, mas quem é você quando ninguém está olhando? Se tirassem seus títulos o que restaria? Se perdesse este nome importante? Você não é seu nome, você não é sua profissão, você não é o que possui, você não é o que o mundo diz sobre você. 
Antes de tudo, desvende ESTE desconhecido. Em caso de dúvida, leia o manual e/ou consulte o fabricante.

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